O dia em que o Chat pensou que eu era um homem
Quando falamos de estratégia, dados e decisões, o imaginário coletivo ainda associa essas palavras a uma figura masculina. Sobre vieses, mercado e ideias descartadas.
Sabe aquela trend da caricatura que estava rolando esses dias? Pois então... eu fiz a minha também. Mas não tive coragem de compartilhar.
Sabe por quê? Porque o Chat me desenhou como homem. No primeiro momento, eu estranhei, pensei que tinha sido rasa de mais no prompt. Depois ri e pensei: será que o Chat sabe algo sobre mim que eu ainda não sei? Mas aí eu perguntei diretamente: por que você me desenhou assim?
A resposta foi objetiva e, pra mim, reveladora: “Na geração da imagem, o sistema acabou usando um arquétipo visual genérico de ‘estrategista/gestor e criador’, que infelizmente ainda vem muito carregado de referências masculinas (óculos, barba, traços).”
E pronto. Estava ali, escancarado.
O viés que não é só da máquina
Quando falamos de estratégia, dados, negócios, decisões e direção, o imaginário coletivo ainda tende a associar essas palavras a uma figura masculina. E isso fica ainda mais evidente em mercados tradicionais onde a liderança foi construída sob lógicas que, muitas vezes, resistem ao novo.
Eu sou mulher. Sou jovem. Sorriso largo. Gosto de pintar a unha, usar um saltinho e discutir negócios com profundidade, método e visão.
E o mais curioso é que esse “desenho automático” não acontece só em imagem, não é apenas um erro de inteligência artificial. Ele acontece em reuniões, em decisões e em como a gente reage a ideias novas. Às vezes, não é a ideia que é fraca ou absurda de mais — é o filtro cultural que define o que parece “sério”, “possível” ou “digno de atenção”.
Quando o viés vira decisão de negócio
Ontem, em um projeto de consultoria, isso apareceu de forma muito prática. Ao analisar canais digitais, encontrei algo simples e direto: as pessoas estão buscando, em grandes marketplaces como a Amazon, exatamente pelo tipo de produto que essa empresa vende. Levei esse dado para o time comercial como insight de comportamento. A reação? Risos. “Isso não se vende em e-commerce.” “Esse produto exige técnico, montagem, ajuste, entrega.” “Isso é algo que nunca vai dar certo”.
E eu concordo: não é simples. Mas a pergunta que fica não é sobre a complexidade do produto. É sobre o comportamento do mercado: se as pessoas já estão procurando por isso, será que não existe demanda? Ou será que a gente ainda está preso ao que acredita que o cliente deveria fazer, em vez de observar o que ele já está fazendo?
O erro da caricatura não foi técnico. Foi cultural. E esse mesmo “piloto automático” aparece todos os dias nas empresas, quando uma ideia é desconsiderada só porque não se encaixa no modelo mental do que é “sério”, “possível” ou “do nosso mercado”.
No fim, muitas decisões de negócio falham pelo mesmo motivo: não por falta de dados, mas por resistência em questionar crenças. E eu acredito muito que o futuro pertence às empresas dispostas a ouvir o mercado, mesmo quando ele desafia suas certezas.