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Reflexão·4 min de leitura

O dia em que o Chat pensou que eu era um homem

Quando falamos de estratégia, dados e decisões, o imaginário coletivo ainda associa essas palavras a uma figura masculina. Sobre vieses, mercado e ideias descartadas.

Sabe aquela trend da caricatura que estava rolando esses dias? Pois então... eu fiz a minha também. Mas não tive coragem de compartilhar.

Sabe por quê? Porque o Chat me desenhou como homem. No primeiro momento, eu estranhei, pensei que tinha sido rasa de mais no prompt. Depois ri e pensei: será que o Chat sabe algo sobre mim que eu ainda não sei? Mas aí eu perguntei diretamente: por que você me desenhou assim?

A resposta foi objetiva e, pra mim, reveladora: “Na geração da imagem, o sistema acabou usando um arquétipo visual genérico de ‘estrategista/gestor e criador’, que infelizmente ainda vem muito carregado de referências masculinas (óculos, barba, traços).”

E pronto. Estava ali, escancarado.

O viés que não é só da máquina

Quando falamos de estratégia, dados, negócios, decisões e direção, o imaginário coletivo ainda tende a associar essas palavras a uma figura masculina. E isso fica ainda mais evidente em mercados tradicionais onde a liderança foi construída sob lógicas que, muitas vezes, resistem ao novo.

Eu sou mulher. Sou jovem. Sorriso largo. Gosto de pintar a unha, usar um saltinho e discutir negócios com profundidade, método e visão.

E o mais curioso é que esse “desenho automático” não acontece só em imagem, não é apenas um erro de inteligência artificial. Ele acontece em reuniões, em decisões e em como a gente reage a ideias novas. Às vezes, não é a ideia que é fraca ou absurda de mais — é o filtro cultural que define o que parece “sério”, “possível” ou “digno de atenção”.

Quando o viés vira decisão de negócio

Ontem, em um projeto de consultoria, isso apareceu de forma muito prática. Ao analisar canais digitais, encontrei algo simples e direto: as pessoas estão buscando, em grandes marketplaces como a Amazon, exatamente pelo tipo de produto que essa empresa vende. Levei esse dado para o time comercial como insight de comportamento. A reação? Risos. “Isso não se vende em e-commerce.” “Esse produto exige técnico, montagem, ajuste, entrega.” “Isso é algo que nunca vai dar certo”.

E eu concordo: não é simples. Mas a pergunta que fica não é sobre a complexidade do produto. É sobre o comportamento do mercado: se as pessoas já estão procurando por isso, será que não existe demanda? Ou será que a gente ainda está preso ao que acredita que o cliente deveria fazer, em vez de observar o que ele já está fazendo?

O erro da caricatura não foi técnico. Foi cultural. E esse mesmo “piloto automático” aparece todos os dias nas empresas, quando uma ideia é desconsiderada só porque não se encaixa no modelo mental do que é “sério”, “possível” ou “do nosso mercado”.

No fim, muitas decisões de negócio falham pelo mesmo motivo: não por falta de dados, mas por resistência em questionar crenças. E eu acredito muito que o futuro pertence às empresas dispostas a ouvir o mercado, mesmo quando ele desafia suas certezas.

Vanessa Soccol · Estratégia · Comunicação · Gestão